quarta-feira, 5 de junho de 2013

Oficina de poesia dadaísta (uma experiência poética)

por Luciano Melo

Como o objetivo do "Aprendo porque leio..." é justamente compartilhar experiências ao redor do universo da leitura, compartilho com nossos leitores a vivência de uma oficina literária realizada entre agosto e setembro 2012 na E.E. Com. Jaques Yves Cousteau (Suzano/SP), com alunos dos 3ºs anos do Ensino Médio. O projeto, que segue na íntegra, pode ser adaptado para outras temáticas envolvendo a reescrita textual a partir de outros registros do cotidiano, como jornais e revistas.
O convite está feito. Quer vir conosco?

Receita para um poema dadaísta  
Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

Trecho do “Manifesto Dada”, de Tristan Tzara (1896-1963), poeta e fundador do movimento dadaísta.



Oficina de poesia dadaísta
 

Público-alvo: Alunos dos 3ºs (A, B, C, D e E) do Ensino Médio

Período: 20 de agosto a 13 de setembro de 2012

Profºs Responsáveis: Luciano Melo e Tânia Benevides

Profª Coordenadora Pedagógica: Márcia Costa


1.    Apresentação


O conceito estético das vanguardas
Durante o último ano do Ensino Médio, o desafio de iniciar com os alunos o que se determina de movimento modernista no Brasil esbarra em dois aspectos “conceituais”, a saber: histórico e estético. O primeiro, por situar-se na transição entre os séculos XIX e XX, requer certa agudeza na relação entre arte e história, como o desenvolvimento de experimentos científicos e de artefatos tecnológicos, o progresso  das grandes metrópoles, como Paris, Londres, Milão e Nova York, e, principalmente, o prelúdio dos conflitos que desembocariam na Primeira Guerra Mundial são alguns dos elementos necessários para os estudantes compreenderem as motivações que implicaram na proposta de uma “nova arte” para o século que se iniciara. Em consequência, rumo ao segundo conceito citado, na Europa pós-Belle Époque surge a efervescência de diversas alianças entre artistas e intelectuais determinados em romper uma “nova era” para as mais variadas manifestações socioculturais do período. Surgem as vanguardas artísticas, vernáculo belicista de avant-garde, literalmente o pelotão “à frente da guarda”.
Recheada de manifestos, palavras de ordem, rompendo e assombrando o público ainda resoluto à tamanha violência artístico, as vanguardas europeias do início do século XX serão o combustível estético para as variadas “modernidades” iniciadas no Velho Continente, como o Futurismo, o Expressionismo, o Cubismo e o Dadaísmo. Anos depois, esta miscelânea de produções, propostas e intervenções serão diluídas pelos modernistas paulistas naquilo que se nomeou como “Movimento Antropofágico” e na seminal “Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922)”.


2.    Justificativa

A proposta da oficina de poesia dadaísta
Dada a importância deste período crucial para as manifestações artísticas no Ocidente e, em consequência, para a construção cidadã e intelectual do formando no Ensino Médio, diante deste emaranhado de informações, obras e artistas que percorreram pouco mais de trinta anos entre Europa e Brasil, tornam-se primordiais atividades pedagógicas que alicercem tais conhecimentos. Trazendo ao objeto de estudo da disciplina de Língua Portuguesa e Literatura, ou seja, a investigação e a compreensão da natureza textual e, em seguida, a proposta de produções escritas, sugeriu-se uma prática em sala de aula que contemplasse as exigências citadas para o curso.
Dentre os diversos grupos vanguardistas estudados, percebeu-se que o dadaísmo (ou dada) provocou entre os alunos maior incredulidade diante da radicalidade do movimento. Atestaram-se tais reações na observação e discussão de L.H.O.O.Q (1919), intervenção de Marcel Duchamp ao colocar bigodes na Gioconda (Monalisa), de Leonardo da Vinci. É saboroso verificar como a provocação dadaísta ainda incomoda o espectador do século XXI, principalmente ao público adolescente, menos afeito e ainda em formação intelectiva. Sobre isso, no essencial História Social da Arte e da Literatura, Arnold Hauser comenta que

“A luta sistemática contra o uso dos meios convencionais de expressão e a consequente desintegração da tradição artística oitocentista começam em 1916 com o dadaísmo, um fenômeno do tempo de guerra, um protesto contra a civilização que levara o mundo à guerra e, portanto, uma forma de derrotismo. A finalidade do movimento consiste em resistir à sedução das formas prontas, sem originalidade, e aos convenientes mas imprestáveis, porque desgastados, clichês linguísticos, que falsificam o objeto a ser descrito e destroem a espontaneidade da expressão. O dadaísmo, tal como o surrealismo, com o qual concorda totalmente a esse respeito, é uma luta pela expressão direta, espontânea, ou seja, é um movimento essencialmente romântico. [...]” (HAUSER, 1992, p. 962) [grifos nossos]

            Natural, portanto, que uma sugestão de oficina literária com os alunos se inicie a partir de um objeto de estudo provocativo de atenção. Para este fim, a proposta dadaísta se enquadra nos requisitos didáticos aludidos anteriormente: investigação, compreensão e produção textuais. A singularidade da produção dada, norteada pela manifestação espontânea, relacionou-se com o despojamento formativo do estudante do Ensino Médio. Durante a execução do projeto, a execução desvinculada a normas de manufatura poética representou uma rara liberdade na própria manufatura dos textos, acentuada na disposição de mesas e cadeiras nas salas de aula, espalhadas na constituição dos grupos (ver “Anexo – Fotos”).


3.    Objetivos

Os objetivos desta oficina de poemas dadaístas são:

a)      compreender a estética dada por meio de produções poéticas semelhantes à metodologia artística do movimento;

b)      as possíveis relações da escola dadaísta na poesia modernista brasileira, principalmente no experimentos textuais de Oswald de Andrade;
c)      discutir em grupo a construção de poemas a partir de sintagmas retirados de jornais;

d)     refletir sobre a constituição gramatical de sentenças poéticas.



4.    Metodologia

Para a compreensão da gênese do movimento dadaísta, recorreu-se às referências bibliográficas de alcance dos alunos do 3º ano da E.E. Comandante Jacques Yves Cousteau: o livro didático adotado pela escola (Português linguagens: volume 3, de William R. Cereja e Thereza C. Magalhães) e o caderno do aluno distribuído pela SEE (Caderno do aluno: língua portuguesa, ensino médio – 3ª série, volume 2. Secretaria da Educação). A metodologia das leituras ocorreu de maneira intercalada, pois um dos objetivos deste projeto é diagnosticar as possíveis analogias entre as vanguardas europeias e a construção estética do modernismo brasileiro. Para tanto, colocou-se em tábua de comparação os conceitos apreendidos entre o livro e o caderno, respectivamente, o capítulo “Vanguardas europeias” (p. 42-50) e os textos “O Modernismo brasileiro” e “A primeira fase do Modernismo” (p. 8-10). Ao final, exibiu-se a reportagem “Documento – A Semana de Arte Moderna de 1922” , (45 min.) exibida pelo canal Globo News.
Após o segmento de leituras, a exibição da reportagem e a explanação do projeto, os alunos reuniram-se em grupos entre 4 e 6 integrantes para a investigação e recolha dos vocábulos que preencheriam os poemas dadaístas. Os materiais de pesquisa foram exemplares do jornal Folha de São Paulo dos dias 03 a 13 de setembro de 2012. Os cadernos do periódico foram distribuídos de forma aleatória, sendo permitida a troca entre os alunos ou a consulta às demais páginas não entregues. Solicitou-se à cada turma a escolha de 20 (vinte) palavras ou expressões elegidas pelo crivo de todos os participantes e que, de alguma maneira, a critério dos estudantes, revelassem determinado “sentido”. Diante da sugestão, verificou-se a preocupação dos alunos em selecionar apenas substantivos e/ou adjetivos e descartar demais classes de palavras, revelando um oportuno momento de reflexão sobre a constituição gramatical das sentenças poéticas.
Após os grupos apurarem os vocábulos, foram entregues folhas de sulfite para a colagem das recolhas, com montagens ao crivo dos alunos. Em seguida, solicitou-se que por meio das palavras selecionadas, cada grupo produzisse um poema sem aventar a possibilidade de integração entre sintagma/ordem, ou seja, entre objeto (palavra)/ideia (discurso). No entanto, necessariamente, as vinte escolhas deveriam estar presentes no texto poético. 
5.    Cronograma

·         20 a 23/08 – Leituras do capítulo “Vanguardas europeias” (livro didático) e dos textos “O Modernismo brasileiro” e “A primeira fase do Modernismo” (caderno do aluno);

·         27 a 30/08 – Exibição da reportagem “Documento – A Semana de Arte Moderna de 1922”;


·         03 a 13/09 – Confecção dos poemas dadaístas. Leitura das produções em sala de aula.


6.    Recursos

·         10 (dez) exemplares de jornais;
·         50 (cinquenta) folhas de sulfite;
·         10 (dez) tesouras escolares;
·         05 (cinco) tubos de cola escolar.



7.    Público-alvo
Alunos dos 3ºs (A, B, C, D e E) do Ensino Médio de 2012.


8.    Professores responsáveis

José Luciano de Melo e Tânia Benevides.



9.    Referências

Caderno do aluno: língua portuguesa, ensino médio – 3ª série, volume 2. Secretaria da Educação. CTP, Impressão e Acabamento, 2012.


ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução: Denise Bottmann e Federico
Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

            CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português
linguagens: volume 3. 7ª edição. São Paulo: Saraiva, 2010.

HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Tradução:
Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Vídeo
Semana de Arte Moderna (1922) – Globo News. (45 min). 2012. “Documento – A Semana de Arte Moderna de 1922”, exibido pelo canal Globo News (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=tJKYZdGU4rA). Assistido em 18 ago. 2012.



Fotos





4 comentários:

  1. Puxa, gostei muito do relato sobre leitura e escrita. Realmente um mundo a ser explorado.

    ResponderExcluir
  2. Luciano, achei sensacional essa vivência de leitura, se um dia eu tiver alunos do 3º ano do Ensino Médio vou adaptar seu projeto para eles, espero que você e a Profª Tânia não cobrem direitos autorais, rs. Mas, devo avisar que o projeto "sacudiu" minhas ideias, quem sabe não o adequo para o fundamental II como projeto da Sala de Leitura?! Vou relê-lo para aprender e poder ensinar... Eurides

    ResponderExcluir
  3. Olá, sou o professor Romualdo Matos. Faço parte deste grupo. Gostaria de me cadastrar, para poder adicionar minhas postagens. Obrigado.

    ResponderExcluir