por Luciano Melo
Como o objetivo do "Aprendo porque leio..." é justamente compartilhar experiências ao redor do universo da leitura, compartilho com nossos leitores a vivência de uma oficina literária realizada entre agosto e setembro 2012 na E.E. Com. Jaques Yves Cousteau (Suzano/SP), com alunos dos 3ºs anos do Ensino Médio. O projeto, que segue na íntegra, pode ser adaptado para outras temáticas envolvendo a reescrita textual a partir de outros registros do cotidiano, como jornais e revistas.
Como o objetivo do "Aprendo porque leio..." é justamente compartilhar experiências ao redor do universo da leitura, compartilho com nossos leitores a vivência de uma oficina literária realizada entre agosto e setembro 2012 na E.E. Com. Jaques Yves Cousteau (Suzano/SP), com alunos dos 3ºs anos do Ensino Médio. O projeto, que segue na íntegra, pode ser adaptado para outras temáticas envolvendo a reescrita textual a partir de outros registros do cotidiano, como jornais e revistas.
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Receita para um poema
dadaísta
Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do
tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção
algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o
outro.
Copie conscienciosamente na ordem em
que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente
original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.
Trecho do “Manifesto Dada”, de Tristan Tzara
(1896-1963), poeta e fundador do movimento dadaísta.
Oficina de poesia
dadaísta
Público-alvo: Alunos dos 3ºs (A, B, C, D e E) do
Ensino Médio
Período: 20 de agosto a 13 de setembro de
2012
Profºs Responsáveis: Luciano Melo e Tânia Benevides
Profª Coordenadora
Pedagógica: Márcia
Costa
1. Apresentação
O
conceito estético das vanguardas
Durante
o último ano do Ensino Médio, o desafio de iniciar com os alunos o que se determina
de movimento modernista no Brasil esbarra em dois aspectos “conceituais”, a
saber: histórico e estético. O primeiro, por situar-se na transição entre os
séculos XIX e XX, requer certa agudeza na relação entre arte e história, como o
desenvolvimento de experimentos científicos e de artefatos tecnológicos, o
progresso das grandes metrópoles, como
Paris, Londres, Milão e Nova York, e, principalmente, o prelúdio dos conflitos
que desembocariam na Primeira Guerra Mundial são alguns dos elementos
necessários para os estudantes compreenderem as motivações que implicaram na
proposta de uma “nova arte” para o século que se iniciara. Em consequência,
rumo ao segundo conceito citado, na Europa pós-Belle Époque surge a efervescência de diversas alianças entre artistas
e intelectuais determinados em romper uma “nova era” para as mais variadas
manifestações socioculturais do período. Surgem as vanguardas artísticas,
vernáculo belicista de avant-garde,
literalmente o pelotão “à frente da guarda”.
Recheada
de manifestos, palavras de ordem, rompendo e assombrando o público ainda
resoluto à tamanha violência artístico, as vanguardas europeias do início do
século XX serão o combustível estético para as variadas “modernidades”
iniciadas no Velho Continente, como o Futurismo, o Expressionismo, o Cubismo e
o Dadaísmo. Anos depois, esta miscelânea de produções, propostas e intervenções
serão diluídas pelos modernistas paulistas naquilo que se nomeou como
“Movimento Antropofágico” e na seminal “Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922)”.
2. Justificativa
A proposta da oficina
de poesia dadaísta
Dada
a importância deste período crucial para as manifestações artísticas no
Ocidente e, em consequência, para a construção cidadã e intelectual do formando
no Ensino Médio, diante deste emaranhado de informações, obras e artistas que
percorreram pouco mais de trinta anos entre Europa e Brasil, tornam-se primordiais
atividades pedagógicas que alicercem tais conhecimentos. Trazendo ao objeto de
estudo da disciplina de Língua Portuguesa e Literatura, ou seja, a investigação
e a compreensão da natureza textual e, em seguida, a proposta de produções escritas,
sugeriu-se uma prática em sala de aula que contemplasse as exigências citadas
para o curso.
Dentre
os diversos grupos vanguardistas estudados, percebeu-se que o dadaísmo (ou dada)
provocou entre os alunos maior incredulidade diante da radicalidade do
movimento. Atestaram-se tais reações na observação e discussão de L.H.O.O.Q (1919), intervenção de Marcel
Duchamp ao colocar bigodes na Gioconda
(Monalisa), de Leonardo da Vinci. É saboroso verificar como a provocação
dadaísta ainda incomoda o espectador do século XXI, principalmente ao público
adolescente, menos afeito e ainda em formação intelectiva. Sobre isso, no
essencial História Social da Arte e da
Literatura, Arnold Hauser comenta que
“A
luta sistemática contra o uso dos meios convencionais de expressão e a
consequente desintegração da tradição artística oitocentista começam em 1916
com o dadaísmo, um fenômeno do tempo de guerra, um protesto contra a
civilização que levara o mundo à guerra e, portanto, uma forma de derrotismo. A finalidade do movimento consiste em
resistir à sedução das formas prontas, sem originalidade, e aos convenientes
mas imprestáveis, porque desgastados, clichês linguísticos, que falsificam o
objeto a ser descrito e destroem a espontaneidade da expressão. O dadaísmo,
tal como o surrealismo, com o qual concorda totalmente a esse respeito, é uma
luta pela expressão direta, espontânea,
ou seja, é um movimento essencialmente romântico. [...]” (HAUSER, 1992, p. 962)
[grifos nossos]
Natural, portanto, que uma sugestão de oficina literária
com os alunos se inicie a partir de um objeto de estudo provocativo de atenção.
Para este fim, a proposta dadaísta se enquadra nos requisitos didáticos
aludidos anteriormente: investigação, compreensão e produção textuais. A
singularidade da produção dada, norteada pela manifestação espontânea,
relacionou-se com o despojamento formativo do estudante do Ensino Médio.
Durante a execução do projeto, a execução desvinculada a normas de manufatura
poética representou uma rara liberdade na própria manufatura dos textos,
acentuada na disposição de mesas e cadeiras nas salas de aula, espalhadas na
constituição dos grupos (ver “Anexo – Fotos”).
3. Objetivos
Os
objetivos desta oficina de poemas dadaístas são:
a) compreender
a estética dada por meio de produções poéticas semelhantes à metodologia
artística do movimento;
b) as
possíveis relações da escola dadaísta na poesia modernista brasileira,
principalmente no experimentos textuais de Oswald de Andrade;
c) discutir
em grupo a construção de poemas a partir de sintagmas retirados de jornais;
d) refletir
sobre a constituição gramatical de sentenças poéticas.
4. Metodologia
Para
a compreensão da gênese do movimento dadaísta, recorreu-se às referências
bibliográficas de alcance dos alunos do 3º ano da E.E. Comandante Jacques Yves
Cousteau: o livro didático adotado pela escola (Português linguagens: volume 3, de William R. Cereja e Thereza C.
Magalhães) e o caderno do aluno distribuído pela SEE (Caderno do aluno: língua
portuguesa, ensino médio – 3ª série, volume 2. Secretaria da Educação).
A metodologia das leituras ocorreu de maneira intercalada, pois um dos
objetivos deste projeto é diagnosticar as possíveis analogias entre as
vanguardas europeias e a construção estética do modernismo brasileiro. Para
tanto, colocou-se em tábua de comparação os conceitos apreendidos entre o livro
e o caderno, respectivamente, o capítulo “Vanguardas europeias” (p. 42-50) e os
textos “O Modernismo brasileiro” e “A primeira fase do Modernismo” (p. 8-10).
Ao final, exibiu-se a reportagem “Documento – A Semana de Arte Moderna de
1922” , (45 min.) exibida pelo canal Globo News.
Após
o segmento de leituras, a exibição da reportagem e a explanação do projeto, os
alunos reuniram-se em grupos entre 4 e 6 integrantes para a investigação e
recolha dos vocábulos que preencheriam os poemas dadaístas. Os materiais de
pesquisa foram exemplares do jornal Folha de São Paulo dos dias 03 a 13
de setembro de 2012. Os cadernos do periódico foram distribuídos de forma
aleatória, sendo permitida a troca entre os alunos ou a consulta às demais
páginas não entregues. Solicitou-se à cada turma a escolha de 20 (vinte)
palavras ou expressões elegidas pelo crivo de todos os participantes e que, de
alguma maneira, a critério dos estudantes, revelassem determinado “sentido”.
Diante da sugestão, verificou-se a preocupação dos alunos em selecionar apenas
substantivos e/ou adjetivos e descartar demais classes de palavras, revelando
um oportuno momento de reflexão sobre a constituição gramatical das sentenças
poéticas.
Após
os grupos apurarem os vocábulos, foram entregues folhas de sulfite para a colagem
das recolhas, com montagens ao crivo dos alunos. Em seguida, solicitou-se que
por meio das palavras selecionadas, cada grupo produzisse um poema sem aventar
a possibilidade de integração entre sintagma/ordem, ou seja, entre objeto
(palavra)/ideia (discurso). No entanto, necessariamente, as vinte escolhas
deveriam estar presentes no texto poético.
5. Cronograma
·
20 a 23/08 – Leituras do capítulo
“Vanguardas europeias” (livro didático) e dos textos “O Modernismo brasileiro”
e “A primeira fase do Modernismo” (caderno do aluno);
·
27 a 30/08 – Exibição da reportagem
“Documento – A Semana de Arte Moderna de 1922”;
·
03 a 13/09 – Confecção dos poemas
dadaístas. Leitura das produções em sala de aula.
6. Recursos
·
10 (dez) exemplares de jornais;
·
50 (cinquenta) folhas de sulfite;
·
10 (dez) tesouras escolares;
·
05 (cinco) tubos de cola escolar.
7. Público-alvo
Alunos
dos 3ºs (A, B, C, D e E) do Ensino Médio de 2012.
8. Professores responsáveis
José
Luciano de Melo e Tânia Benevides.
9. Referências
Caderno
do aluno: língua portuguesa, ensino médio – 3ª série, volume 2. Secretaria da
Educação. CTP, Impressão e Acabamento, 2012.
ARGAN,
Giulio Carlo. Arte Moderna.
Tradução: Denise Bottmann e Federico
Carotti.
São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português
linguagens: volume 3. 7ª
edição. São Paulo: Saraiva, 2010.
HAUSER,
Arnold. História Social da Arte e da
Literatura. Tradução:
Álvaro
Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
Vídeo
Semana de Arte Moderna
(1922) – Globo News. (45 min). 2012. “Documento – A Semana de Arte Moderna de 1922”, exibido pelo
canal Globo News (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=tJKYZdGU4rA).
Assistido em 18 ago. 2012.
Fotos




Puxa, gostei muito do relato sobre leitura e escrita. Realmente um mundo a ser explorado.
ResponderExcluirLuciano, achei sensacional essa vivência de leitura, se um dia eu tiver alunos do 3º ano do Ensino Médio vou adaptar seu projeto para eles, espero que você e a Profª Tânia não cobrem direitos autorais, rs. Mas, devo avisar que o projeto "sacudiu" minhas ideias, quem sabe não o adequo para o fundamental II como projeto da Sala de Leitura?! Vou relê-lo para aprender e poder ensinar... Eurides
ResponderExcluirMuito interessante...
ResponderExcluirOlá, sou o professor Romualdo Matos. Faço parte deste grupo. Gostaria de me cadastrar, para poder adicionar minhas postagens. Obrigado.
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